Em 2000, na cidade de Cochabamba (com cerca de 700 mil habitantes, considerando-se a área urbana e rural), na Bolívia, houve a privatização da água e do já precário sistema de abastecimento e redes de esgoto, ficando a cargo da Aguas del Tunari, um consórcio criado por capitais dos EUA, Itália, Espanha e Bolívia que, da noite para o dia, aumentou as tarifas em até 300% sem que houvesse sequer melhora nos serviços ou ampliação da área de cobertura para as zonas mais pobres.
Em Cochabamba apenas metade da população na zona urbana tem acesso a água tratada e na zona rural os camponeses, quase na totalidade indígenas, foram expropriados do seu sistema de irrigação e abastecimento que eram utilizados há séculos, um bem comum que se transformou em uma mercadoria muito cara, ou inacessível, de uma hora para outra. Pior do que vem acontecendo no resto da América Latina e no mundo, ao invés de tentar ludibriar a população com a promessa de melhores serviços e ampliação dos mesmos para os mais pobres, a privatização da água (e não somente do sistema de abastecimento, pois até a água da chuva passou a ser propriedade do Consórcio), em Cochabamba, se caracterizou pela transferência direta da renda dos mais pobres para os lucros das transnacionais.
A resistência dos trabalhadores foi ampla, forte e imediata, reunindo trabalhadores do campo, trabalhadores urbanos das mais diversas atividades, intelectuais, estudantes, associação de moradores e sindicatos.
Houve vários dias de batalhas com a polícia, no que ficou conhecido como a Guerra da Água, e culminou com a vitória da luta popular, de forma tangível. O processo de privatização foi cancelado, forçando a transnacional a sair da Bolívia e transformando Cochabamba num exemplo mundial de resistência e numa das cidades onde os trabalhadores têm mais poder, devido às formas organizativas que conseguiram erguer.
Mas as lições dessa união dos trabalhadores na luta foram mais amplas. O que se iniciou como uma luta por um bem indispensável, a água, que o capital está ávido para transformar em uma mercadoria especial devido ao nível de dependência que as populações e a própria indústria têm dela, evoluiu para críticas às políticas estruturais de um país dominado por uma plutocracia racista a serviço das empresas estrangeiras.
Afinal, se na realidade são os trabalhadores, através das tarifas e de seu suor, que financiam essas empresas (e o lucro de um pequeno punhado de capitalistas), porque não podem os próprios trabalhadores gerir esses serviços, sobretudo quando se trata de bens naturais e “públicos”?
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